quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Polícia Federal investiga cônsul honorário do Congo

Ele mentiu ao dizer não conhecer advogado que se passou por representante do país africano para defender Nem

As carteiras do falso cônsul honorário do Congo (à esquerda) e do verdadeiro
 Foto: Reprodução do Fantástico
As carteiras do falso cônsul honorário do Congo (à esquerda) e do verdadeiro Reprodução do Fantástico
RIO - Ainda há um clima de mistério na história envolvendo o falso cônsul honorário da República Democrática do Congo que dava cobertura à fuga do traficante Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, ex-chefe da venda de drogas na Rocinha, preso no porta-malas de um Corolla há 15 dias. Em janeiro deste ano, a Polícia Federal no Amapá instaurou inquérito para investigar o verdadeiro cônsul, o carioca Amaro Pinheiro Neto, por uso de documento falso, falsificação de documento público e falsa identidade.
FOTOGALERIA: Relembre a prisão de Nem
O inquérito apura a legitimidade de um documento que ele apresentou. No site do "Fantástico", da TV Globo, o Itamaraty já afirmou que o governo da República Democrática do Congo confirmou que Amaro é de fato cônsul honorário. Após o mal-estar criado pela presença de um falso cônsul no mesmo carro do traficante, o verdadeiro perderá o título, segundo informou o Itamaraty ao site do "Fantástico".
— Não tenho qualquer conhecimento da investigação da Polícia Federal sobre mim. Não fui notificado de nada — garantiu o cônsul honorário ao GLOBO.
Falso cônsul advogou para o verdadeiro
Amaro, que é cônsul honorário da República Democrática do Congo no Amapá, mentiu à TV Globo ao dizer que não conhecia o advogado André Luís Soares Cruz, que se apresentou como cônsul honorário para impedir a prisão de Nem, na noite do dia 9. O verdadeiro cônsul e o falso não só se conhecem como já viajaram juntos para o Congo. Amaro afirmou que a viagem se deu porque o país estava à procura de representante no Brasil. André Soares não conseguiu a representação. Ele, inclusive, já foi advogado de Amaro numa ação por danos morais movida no Juizado Especial de Jacarepaguá, segundo o site do Tribunal de Justiça do Rio. Ele tinha uma dívida com a escola de seu filho, que foi resolvida numa audiência de conciliação.
O verdadeiro cônsul alegou ao GLOBO que mentiu para preservar sua integridade moral, a de sua família e a do país, já que André Soares foi autuado pela PF por favorecimento pessoal (ajudar um foragido da Justiça).
O falso cônsul aparece como réu em dois processos na Justiça do Rio: um por estupro e outro por furto.
Amaro se diz bastante decepcionado com André Soares. Ele revelou que, a ele, o advogado se dizia cônsul honorário do Sri Lanka:
— Lamento o dia em que o conheci. Estou muito decepcionado e abalado por ter, mais uma vez, me enganado com um ser humano. Ele (o advogado) deve ter alguma problema psicológico sério. Ele sempre foi uma pessoa muito vaidosa. A mim se apresentava como cônsul do Sri Lanka (país localizado ao sul da Índia). Mas nunca mostrou documentos.
Ele revelou ter visto o passaporte diplomático de André Soares quando esteve na Polícia Federal para prestar esclarecimentos.
— É um documento grosseiramente falsificado — disse.
O cônsul contou que foi apresentado ao advogado durante uma festa em 2007. Antes, costumava vê-lo em Santa Teresa, pois moravam na mesma rua, mas nunca haviam se falado, segundo Amaro.
Além do caso do falso cônsul, outro mistério cerca a prisão de Nem. A Corregedoria Interna da Polícia Civil (Coinpol) investiga a tentativa de policiais da 82 DP (Maricá) e da Subchefia Operacional da corporação de intervir no episódio. O delegado Roberto Gomes e os inspetores Mussi e Figueiredo já depuseram, afirmando que negociavam há dez dias a rendição do bandido, que estava com medo de sofrer retaliações. A negociação, segundo eles, estava sendo acompanhada pelo subchefe operacional, Fernando Veloso.
Gafe sobre o país africano no Pan de 2007
Uma piadinha de mau gosto sobre o Congo deixou a delegação americana numa saia justa durante os Jogos Pan-Americanos de 2007. Mal-humorado por causa do calor que fazia na cidade, um dos gerentes de relações com a imprensa, Kevin Neuendorf, não teve dúvidas: pegou uma caneta vermelha e escreveu em letras garrafais no quadro de avisos ao lado de sua mesa, no Riocentro: "Welcome to the Congo!" (bem-vindo ao Congo) .
A frase preconceituosa envolvendo o país africano acabou custando caro ao funcionário. Diante da gafe e da repercussão do episódio, flagrado pelo repórter Ary Cunha, do GLOBO, o Comitê Olímpico dos Estados Unidos decidiu puni-lo. Kevin foi, então, afastado da delegação.
— A frase é porque está muito quente aqui no Rio — justificou Kevin na época.
No entanto, as instalações destinadas aos americanos ficavam num dos pontos mais nobres do remodelado pavilhão 5 do Riocentro, apenas para servir de base aos 18 gerentes de relações com a imprensa do país. O grupo ocupava uma sala inteira, de 678 metros quadrados e sistema de ar condicionado, sem precisar dividi-la com qualquer outra delegação.
O comitê olímpico americano emitiu, no dia seguinte ao episódio, um comunicado oficial, no qual manifestava "as mais profundas desculpas ao povo do Brasil e do Rio pelas lamentáveis ações que foram retratadas numa fotografia e numa reportagem no GLOBO."

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